quinta-feira, 22 de maio de 2008

DEZ REIS DE ESPERANÇA


Se não fosse esta certeza

que nem sei de onde me vem,

não comia, nem bebia,

nem falava com ninguém.

Acocorava-me a um canto,

no mais escuro que houvesse,

punha os joelhos à boca

e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes

do ingénuo adolescente,

a chuva das penas brancas

a cair impertinente,

aquele incógnito rosto,

pintado em tons de aguarela,

que sonha no frio encosto

da vidraça da janela,

não fosse a imensa piedade

dos homens que não cresceram,

que ouviram, viram, ouviram,

viram, e não perceberam,

essas máscaras selectas,

antologia do espanto,

flores sem caule, flutuando

no pranto do desencanto,

se não fosse a fome e a sede

dessa humanidade exangue,

roía as unhas e os dedos

até os fazer em sangue.

António Gedeão

1 comentário:

margarida disse...

é sem dúvida um poema lindo do Gedeão, mas quero-te ver cheio de esperança pelos dias melhores, porque eles estão aí à tua espera. Acredita que sei que não te sentes bem, mas acredita que há sempre uma oportunidade e tu bem a mereces. Digo-te isto, não é só para te fazer feliz, mas porque sei cá dentro que isto é só mais uma má fase que vai passar.
Contínua a lutar cheio de esperança, porque só assim as coisas boas acontecem.

Beijinhos