quarta-feira, 8 de junho de 2011

A PERESTROIKA DE DANIEL OLIVEIRA

Segundo o Daniel, os últimos seis anos representaram o culminar de um processo de descaracterização e esvaziamento ideológico do PS. Para além de um fascínio pela tecnologia, Sócrates terá governado sem destino, terá alimentado o discurso anti-serviços públicos e terá enfraquecido o Estado Social. Para o Daniel, a governação de Sócrates terá aberto a porta à direita porque não foi suficientemente de esquerda.

O maior problema do post do Daniel é o de avaliar o PS partindo exclusivamente da perspectiva que o Bloco tem da esquerda. É irónico que, num texto sobre a necessidade do PS repensar toda a sua estratégia, o Daniel se limite repetir a estratégia com que a extrema esquerda insiste em abordar o PS há mais de 30 anos. O Daniel não quer que o PS se reencontre (seja lá o que isso for); quer que o PS se transforme naquilo que o Daniel deseja para o Bloco. Como é óbvio, o PS tem de reflectir sobre esta derrota eleitoral, mas não se afigura provável que venha a ter um secretário-geral que abandone o projecto de modernizar Portugal, através da qualificação dos seus cidadãos, das suas empresas e do seu território; que considere que avaliar professores é um ataque à escola pública; que recue na reforma do sistema de pensões, porque esta coisa da sustentabilidade é uma invenção da direita. Nem provável, nem desejável, acrescento eu.

Por muitas críticas que o Daniel faça aos governos de Sócrates, é inquestionável que se investiu como nunca na escola pública, tendo-se reabilitado e modernizado o parque escolar, instituído a escola a tempo inteiro, etc; que foram criadas novas prestações sociais, como abono pré-natal e o complemento solidário para idosos; que se mostrou como é possível reconhecer o problema da sustentabilidade, rejeitando as soluções da direita: na segurança social, com a reforma de Vieira da Silva; no SNS, que, após as reformas iniciadas por Correia de Campos, é hoje mais eficaz e mais eficiente, sem que se tenha alterado a sua natureza universal, geral e tendencialmente gratuita; no Código do Trabalho, que, ao contrário da reforma de Bagão Félix, privilegiou a flexibilidade interna (banco de horas) e reforçou a negociação colectiva.

Admito que se pudesse ter ido mais longe em matéria fiscal (mais-valias imobiliárias), mas nunca ao ponto de satisfazer o Daniel, porque grande parte do que ele defende, sobretudo no que diz respeito reforço da tributação sobre o capital, só pode de ser feito ao nível europeu.O mesmo vale para a política de austeridade, que eu também considero errada, mas que, dado o actual enquadramento europeu, é, infelizmente, necessária. Aqui reside talvez o maior erro de Sócrates: não por ter posto em prática uma política de austeridade, como afirma o Daniel, mas por ter sempre assumido a austeridade como sua, como se fosse um projecto em tudo semelhante, por exemplo, ao investimento na escola pública ou à aposta nas energias renováveis . Se é verdade que a personalidade de Sócrates pode explicar este modo de actuação, não é menos verdade que o mais relevante não são as suas características pessoais, mas o facto de ser primeiro-ministro de um pequeno país numa zona euro que institucionalizou a austeridade. Aqui devemos criticar Sócrates mais pelo discurso do que pela prática.
João Galamba

1 comentário:

Anónimo disse...

Em suma: um inocente, o SOCAS.
Um anjinho, que irá directamente para o céu.