quinta-feira, 24 de maio de 2012

POBREZINHOS MAS HONRADOS

Ontem, na cimeira informal de líderes da União Europeia, voltámos a ver Pedro Passos Coelho ao lado de Angela Merkel na recusa do mecanismo de eurobonds que não apenas aliviaria drasticamente o peso dos juros da dívida nas contas públicas portuguesas, como ainda proporcionaria maior competitividade a um tecido empresarial português com acesso a crédito mais barato. E há uma grande diferença entre os dois. Angela Merkel é alemã, Passos Coelho é português. Estará convencido do contrário.
O estado alemão é o que menos paga em juros na Zona Euro: 1,5% por dívida a 10 anos. A taxa recuou a semana passada para um novo mínimo histórico. Ainda ontem, a Alemanha vendeu obrigações a 2 anos com um juro próximo de 0%, 0,07%. Leu bem. A média do custo de financiamento dos últimos dois anos é de 2,48%, muito menos do que o país historicamente alguma vez pagou. E já adivinhou de onde são as três empresas que menos pagam pelo financiamento entre as 600 maiores cotadas europeias. Da Alemanha, claro.
De facto, o negócio da austeridade tem-se revelado bastante lucrativo para a Alemanha. Financia-se a uma média de 1,5% e “ajuda” os países da periferia em dificuldades a cerca de 5%, ou seja, obtendo uma margem de aproximadamente 3,5%. Isto já para não falar dos lucros que o sector financeiro alemão consegue amealhar obtendo liquidez junto do BCE a 1% e depois utilizando-a na compra de dívida dos países da periferia a juros 5, 10, 30 vezes esses 1%. Por exemplo, as OT a 2 anos do país de origem de Passos Coelho ultrapassaram hoje os 14,6% no mercado secundário. “Tudo perfeitamente normal”, como diria aquele seleccionador nacional de futebol que não ganhava uma. Artur Jorge, lembram-se?
Quem diria que, vários anos depois, teríamos um Primeiro-Ministro a funcionar no mesmo registo “tudo perfeitamente normal”. Passos Coelho: Números da execução orçamental "não nos surpreenderam". Referia-se à aceleração da deterioração das nossas contas públicas que continuou a verificar-se entre Março e Abril. A receita continuou a cair, apesar do aumento brutal da carga fiscal. A despesa continuou a aumentar, apesar do roubo de subsídios de férias e de Natal a funcionários públicos e apesar dos cortes brutais nos sectores da Saúde e Educação, principalmente nestes.
Mas desenganem-se aqueles que apressadamente concluem que tudo isto é mera estupidez natural. Não existe estupidez natural quando há quem esteja a ganhar rios de dinheiro. Não é só na Alemanha que a crise está a fazer milionários. Não é à toa que há uma auditoria à dívida portuguesa que PSD, PS e CDS recusam como recusam. O Estado gastou 323,8 milhões de euros com as parcerias público-privadas (PPP) entre Janeiro e Março, valor que compara com os 251,3 milhões despendidos pelos cofres públicos no primeiro trimestre de 2011 e que traduz um acréscimo de 28,8%. Mudou o Governo, mas apenas isso. As clientelas são as mesmas.
Quanto aos cerca de 1,2 mil milhões de euros em juros que pesam na execução ontem divulgada, que poderiam reduzir-se para apenas cerca de 250 milhões com a aprovação do mecanismo de eurobonds que Pedro Passos Coelho não quer, traduzem tanto a recapitalização de um sector financeiro na ressaca de duas décadas de desvarios que, se tornados públicos, forçariam a sua nacionalização, como ainda, e sobretudo, a ausência de sondagens que traduzam uma pressão política capaz de convencer Passos Coelho de que é português e não alemão. Os portugueses compreendem. Compreendem sempre. Pobrezinhos mas honrados. Repete-se, são elogiados por essa Europa fora. "Os portugueses pagam", diz-se "lá fora". Trocam elogios pela dignidade do seu presente e pelo direito a um futuro. 
País do Burro

terça-feira, 24 de abril de 2012

Síndrome da incompletude




Há pessoas como casas inacabadas


Promessas fracassadas de grandeza


Aquém do zénite da sua beleza


A esquelética estrutura condenadas.


Vemos amiúde tais testemunhas silenciosas


Cheias de discrição e firmemente ociosas


Que antes de digna existência


Já estão decrepitas e em demência.






Não chegam a ser náufragos


Falta-lhes viagem, solenidade inaugural,


Comité festivo e respectivo ritual.


Abortos quixotescos


Testemunhos de imperfeição


Com trémula majestade


Mas repletos de desilusão.






Sem veludo, cetim ou lantejoula


Construções lacunares, ásperas e nuas


Parecem murmurar por esmola.


Assombrações com corpos corroídos


De palavras mudas e desejos traídos.


Titãs de potencial asfixiado


Falam como quem pede desculpa,


Por estarem à míngua do projectado.

Anjo Canhoto

A AVALANCHE


O FMI  prevê que Portugal sofrerá, até 2016, uma avalancha de investimento estrangeiro. O governo já tinha dito o mesmo, mas aos nossos governantes sempre dou um desconto por confundirem a venda ao desbarato do nosso património com investimento. São néscios e aldrabões, não nos devemos admirar que misturem a realidade com a fantasia. 
Agora, quando vejo  o FMI  dizer o mesmo, então já fico com “a pulga atrás da orelha”. Vai daí, dei 1,10€ pelo JN para ler a notícia - que tinha chamada de capa.
Na página 48 confirmei as minhas suspeitas. O FMI diz, na verdade, o mesmo que os nossos governantes mas  acrescenta ( pormenor importante que o nosso governo escamoteia…)  “os ganhos da economia serão quase nulos!”.
Ou seja,  quando  este governo der à sola depois de vender todas as nossas empresas lucrativas a capital estrangeiro, terá cumprido a sua promessa eleitoral de deixar o país mais pobre e sem quaisquer hipóteses de recuperação porque,  como também diz o FMI “ (do investimento estrangeiro) pouco ficará em termos líquidos na economia, já que os investidores vão extrair rendas e lucros, repatriando os ganhos para os seus países de origem”. Ainda de acordo com o FMI, a partir de 2017 haverá “ um agravamento das necessidades de financiamento”. Como iremos pagá-lo, é que o FMI nada diz.
Resumindo: este governo delapida o país em quatro anos, os seus membros  ganharão o reconhecimento dos investidores e, muito provavelmente, serão contemplados  com cargos nas empresas que venderam ao desbarato, ou em algumas das suas subsidiárias, para não dar tanto nas vistas.  Os portugueses ficarão soterrados nos escombros desta avalanche de investimento, à espera que as brigadas de socorro venham em sua salvação. 
Sabendo o que nos reserva o futuro, Cavaco faz agora coro com o governo, dizendo que vamos sair da crise mais rapidamente do que era esperado. Estamos entregues aos bichos!
Carlos Barbosa

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Paula e a síndrome de Estocolmo

Ministra da Justiça admite que corte de subsídios perdure após 2015…

 Afinal não se tratou de um lapso mas de um relapso vício de mentir aos portugueses. A intolerável chicana política tecida pelo actual Governo à volta dos cortes de subsídios mostra a ligeireza e a indignidade do exercício do poder e como é possível fazer política com honestidade e sobranceria. Não é indiferente para os portugueses e portuguesas ter de 'suportar' um corte temporário de subsídios (uma importante redução de rendimentos) ou ser vítima de um brutal confisco. Como também não será indiferente esta enviesada e propositada “confusão” para os partidos políticos e comportamento cívico dos cidadãos. O anúncio da Sr.ª Ministra de que os cortes de subsídios podem perdurar após 2015 significa, pura e simplesmente, o falhanço das actuais “soluções” austeritárias. Claro que esse facto terá consequências políticas. Uma delas será que a actual coligação (após 2015) terá de passar pelo crivo de eleições legislativas (por coincidência em 2015, se não forem antes). Portanto, a advertência de Paula Teixeira Pinto, além de extemporânea e politicamente suicidária, mostra uma outra perversidade. A ilusão dos actuais governantes de que à custa de malabarismos e da exploração do medo podem eternizar-se no Poder. A sociedade portuguesa não se deixará devorar (capturar) pela Síndrome de Estocolmo. Punirá os sequestradores da democracia. Afastará os carrascos que teimam em cercear as suas legítimas aspirações.
 Ponte Europa

ARGENTINA

Em dia histórico de nacionalização da YPF, a única companhia de exploração petrolífera privatizada da América Latina, vale a pena lembrar o processo de privatização. Não há duas sem três. E esta é terceira vez que aqui publico o documentário argentino "Memória de um Saque". Chamo a atenção para a parte a partir do minuto 59:00, onde o caso da YPF é tratado em concreto. O documentário é todo obrigatório, dados os paralelismos com a situação portuguesa nos dias que correm.


Fernando Solanas, realizador do documentário, foi baleado depois de ter denunciado publicamente o processo de privatização. Nuno Teles

quarta-feira, 18 de abril de 2012

PAULA TEIXEIRA DA CRUZ


É uma pena que a ministra ande tão empenhada no enriquecimento ilícito e não disponibilize os meios financeiros para que os submarinos sejam investigados. Algo está muito podre quando um governo pode "gerir" o que o MP pode investigar através da asfixia financeira.

«O procurador-geral da República (PGR) justificou esta terça-feira o atraso na investigação do caso da compra de dois submarinos à Alemanha com a falta de dinheiro para a realização de perícias.

"É muito difícil quando mete perícias. São caríssimas e temos estado à espera que o Ministério da Justiça disponibilize a verba", disse Pinto Monteiro, a propósito do inquérito sobre a compra de submarinos que está a ser investigado há anos pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).» [CM]

domingo, 15 de abril de 2012

OLHÓS MEUS CHOURIÇOS, ASSUNÇÃO!


Pedro Passos Coelho precisava de angariar mais receitas, mas tinha esgotado a imaginação e não conseguia encontrar uma ideia para lançar um novo imposto. Telefonou a Paulo Portas a pedir ajuda. O ministro fantasma prometeu tratar do assunto. Reuniu-se com Pedro Mota Soares e pediu-lhe que criasse mais um imposto disfarçado, reduzindo mais umas regalias, a pretexto de evitar as fraudes.
- Porque é que hei-de ser sempre eu, Paulo? – choramingou o ministro da Vespa que num passe de mágica se transformou num Audi.
- Está bem vou telefonar à Cristas- condescendeu Portas
“Ó Cristas, inventa lá no teu ministério um imposto que não pareça imposto e dê ares de ser uma boa ideia!”
- Ok, Paulo, tu mandas. Dá-me só uma horinha que eu já arranjo uma solução.

Uma hora depois ....

-Está lá, Paulo? Já descobri. Vou criar uma taxa sobre os alimentos!
-Tu estás louca Assunção ! Com os portugueses a passar fome e vens-me com a ideia de aumentar o preço dos alimentos? Deves querer correr comigo do governo. Isso não se faz, olha que fui eu que te arranjei esse ministério de luxo.
- De luxo? Deves estar a gozar comigo, Paulo. Sabes lá o que eu tenho passado por aí! Até já tive de andar a espremer as tetas das vacas, imagina!
- Eu vi na televisão. Não tens lá muito jeito, mas um dia destes a gente encontra-se e eu ensino-te umas técnicas que aprendi nas feiras, para ultrapassar momentos delicados. Bem, mas vamos lá ao que interessa. Eu não quero...
- Calma, Paulo, calma...Não te preocupes! As pessoas não vão perceber. Vou anunciar uma taxa sobre os comerciantes, dizendo que é para garantir a saúde e segurança dos alimentos e toda a gente vai achar bem. Se eles resolverem fazer incidir essa taxa sobre os consumidores, a culpa não é nossa, estás a ver?
- Bem visto, sãozita, bem visto. Eu sabia que tinha feito uma boa escolha quando te nomeei.Olha, mas faz-me um favor. Põe aí uma excepção na lei. Os estabelecimentos com menos de 400 m2 não pagam taxa.
- Porquê, Paulo?
- Eh, pá, é que o merceeiro lá do meu bairro, o sr.Casimiro, todos os meses me oferece uns chouriços e eu tenho receio que essa taxa o ponha mal disposto. E sabes bem como eu gosto de chouriços, não sabes?
- Pronto, está combinado, Paulinho. Fica tranquilo que não te vou tirar esse prazer dos chouriços.
CBO

terça-feira, 3 de abril de 2012

OS PORTUGAS SÃO TODOS VIGAROS E MALANDROS...É QUE DIZ ESTE GOVERNO!...


Quem tiver mais de 25 mil euros no banco vai deixar de poder aceder ao Rendimento Social de Inserção (RSI). Quem estiver preso preventivamente ou possuir casa, carro ou aeronave até ao mesmo valor também fica de fora. As novas regras de acesso ao RSI, que integram o amplo pacote de revisão das regras das prestações sociais apresentado ontem pelo Governo em sede de concertação social, serão inócuas em termos de efeitos práticos, mas, objectivamente, perseguem um objectivo claro: tentar denegrir e estigmatizar os beneficiários daquele apoio, que aparecem na lei como ricos donos de aviões e criminosos em potência, para depois capitalizar em aceitação a estigmatização assim gerada.
A mesma estratégia foi utilizada para a redução dos subsídios de doença, diminuídos na rentabilização da ideia de subsidiação da preguiça e de combate a uma fraude generalizada por comprovar que, a existir, se combateria com mais fiscalização e não cortando a já anteriormente parca protecção em situações de vulnerabilidade acrescida. Nesta redução da protecção na doença, destaca-se o preceito que acautela eventuais situações em que uma pessoa com baixa médica possa receber um valor superior àquele que receberia caso estivesse a trabalhar, o que, por ser impossível, nunca acontecia.
Evidentemente, o Estado não vai poupar um cêntimo com esta medida, mas, tal como nas demais do mesmo género, A ideia de que tal é possível, que fica no ar, serve na perfeição o objectivo de maximizar a aceitação da perda de direitos incluídas nas restantes, que afectam toda a gente, e a minimização das reacções da tacanhez que nela se deixa enredar. Como em episódios anteriores da nossa regressão social, os fantasmas são fabricados para servir a demagogia dos ladrões de direitos. Puseram outra vez a inveja a trabalhar para eles. E lá sairemos todos a perder outra vez enquanto sociedade.
Um país de burros!...

quinta-feira, 22 de março de 2012

OS INSUBSTITUÍVEIS



António Borges é assim uma espécie de super-homem. Tudo consegue fazer e tudo lhe é permitido. Só existem duas diferenças que não o identificam com a personagem de ficção: a primeira é que não é ficção coisa nenhuma. A segunda é que as remunerações que aufere deixam o jornalista Clark fora de comparações. O verdadeiro super-homem é mesmo o dr. Borges. Valente.

TD

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

ISTO DEVAGAR VAI LÁ



Frau Merkel, que se devia ter abstido de contar contas que não são do seu rosário, acaba por não dizer nada de nada, porque só lhe mostraram o final do desfile de um samba de enredo, cujo refrão é a promiscuidade partido-governo regional-empresas, cantado e dançado por meia dúzia de famílias que se deram bastante bem com os fundos estruturais e com a ausência de incompatibilidades no Governo e no Parlamento regional.

E depois há o atraso e o subdesenvolvimento e a ausência de infra-estruturas, tudo recuperado nestes 30 e tal anos. Está bem, nós vamos fazer de conta que não conhecíamos Portugal continental nestes também 30 e tal anos, e fazer de conta que não sabemos quais foram as prioridades por detrás do milagre jardinista da "recuperação". Basta recordar aliás quando, há coisa de um mês se acabou o dinheiro, a quem Alberto João Jardim pagou – às empresas municipais e aos empreiteiros das obras do regime, e quem é que deixou para segundo plano – a comparticipação dos medicamentos à população. Prioridades.

Delicioso é ver Alberto João Jardim perguntar por que cargas de água a senhora lá no fim do mundo foi puxar como exemplo uma ilha perdida nos cus de Judas, como se não soubesse, como se não soubéssemos todos, e como se todos não soubéssemos que ele sabe quem foi a mosca que zumbiu um segredo na orelha da senhora uber alles.

O destino está[va] traçado nas estrelas, e os cavaquistas já só são anónimos. Isto devagar vai lá.

José Simões