sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MERCADO NEGRO

Cavaco Silva disse que não falaria mais sobre o seu lucrativo negócio de acções mas com isso não conseguiu impedir a catadupa de informações, contra-informações e até tentativas desastradas de o ilibar da suspeita. A verdade é que o negócio não foi propriamente transparente e sendo corrente na economia portuguesa o recurso a este tipo de expedientes de enriquecimento fácil, não deixa de ser um bom retrato do que por cá se passa.

Agora surgem os mais diversos testemunhos de que Cavaco comprou a um preço aceitável e que na venda até perdeu dinheiro, isto é, ainda poderia ter ganho mais de 140%. A questão é saber que mercado de capitais particular é este onde se ganham margens de mais de 100% sem quaisquer riscos, quando nem a empresa apresentava sinais de valorização que justificassem tal valorização, nem o país estava numa situação económica que justificasse tais lucros.

Ficamos a saber que há investidores que contam com os presidentes de bancos privados como gerentes de conta e que depositam confiança neles ao ponto de as suas poupanças serem investidas no próprio banco para depois ser o mesmo presidente do banco a fixar os lucros do investidor. Será que todos os investidores e depositantes do BPN tiveram direito a tal privilégio? É evidente que não, este tipo de negócios está reservado a uma pequena elite e é alimentado pelo logro em que caem milhares de pequenos aforradores que acreditam num mercado de capitais que é uma autêntica Feira da Ladra.

Se no mercado bolsista são mais do que evidentes os sinais de que há gente a enriquecer de forma fácil, o último caso foi o da compra de acções do Finibanco pelos seus próprios administradores quando já sabiam que o banco ia ser comprado pelo Montepio Geral. Aliás, todos nos lembramos do crash na bolsa portuguesa quando Cavaco Silva era primeiro-ministro e avisou que muitos dos papeis vendidos na bolsa não tinham qualquer valor.

Não deixa de ser questionável que um professor de finanças que se oferece para ajudar o seu país com os seus vastos conhecimentos de economia entregue as suas poupanças ao cuidado de Oliveira e Costa e nunca tenha estranhado um lucro que nenhum manual de economia pode explicar, até porque tendo sido Oliveira e Costa a decidir o negócio nem pode invocar a especulação como justificação económica para tão grande lucro. Quais os fundamentos económicos da decisão de investir e o que o levou a desinvestir?

Em Portugal há dois tipos de aforradores, os que ganham sempre e os papalvos. Uns beneficiam de informação privilegiada e fazem excelentes negócios na bolsa ou no tráfico de acções não cotadas, os outros são vítimas dos golpes que sistematicamente desnatam o mercado de capitais.

Quando alguns agora dizem que na altura em que Cavaco vendeu as acções poderia ter ganho ainda mais interrogo-me se outros não estaria a perder tudo. Recordo-me de quando a PJ invadiu a casa da Dona Branca, foi apupada por gente que estava na fila de espera e queria à força aplicar as suas poupanças na banqueira do povo. É assim o nosso mercado negro de capitais, seja o Oliveira e Costa ou a Dona Branca a decidir quem ganha e quem perde.

Parece-me pouco importante saber se quando Cavaco comprou alguém comprou mais barato ou se quando vendeu alguém vendeu mais caro, o que neste momento é evidente é que em nenhum momento havia um preço aplicado a todos, isto é, era Oliveira e Costa quem decidia quem perdia e quem ganhava. Isto não é um mercado de capitais, rege-se pelas regras do mercado negro.

Jumento

Obrigada, Teresa Caeiro

Hoje o criativo entrevistado é Nuno Cardoso, supervisor criativo (copy)da BBDO. Esperamos que gostem.

Ao contrário do que se diz por aí, a tal da BBDO não é uma agência que qualquer pessoa conheça, assim, só de ouvir o nome. Há pessoas ignorantes, como eu.

Não vou perder tempo com a profundíssima questão levantada na SICN por Teresa Caeiro, sobretudo quando sei que essa mesma questão foi levantada para comparar o BPP com o BPN para efeitos de dar um chapadão em Alegre. Queria a “novidade” avançada pela Deputada sob o olhar sôfrego de quem a ouvia ter o efeito de desautorizar Alegre quando este questiona Cavaco acerca de quem comprou as acções que ele vendeu, já que Alegre fez campanha publicitária quando era Deputado (e Vice-Presidente da AR) para o BPP.

Pelo que vejo, já estou a perder muito tempo com isto, já vou em 6 linhas de escrita, salvo erro, mas de facto custa-me ver que se atire à cara de um candidato que ele escreveu um texto sobre dinheiro em 2005, para uma publicação que publicitava o BPP, tendo restituído o dinheiro ganho, assim para dizer ao candidato vê lá se te calas que também tens poeira em casa. Custa-me porque não entendo a analogia entre isto e, perante uma série de factos naturalmente relevantes em democracia, fazer – ousar!- uma pergunta a um outro candidato que pode ajudar – se respondida – a esclarecer eventuais ligações desagradáveis Cavaco/BPN. Custa-me, isto custa-me, porque não encontro analogia possível nas situações dos candidatos, no sentido de ser possível afirmar assim: ligações Alegre/BPP versus ligações Cavaco/BPN. Não sendo isto possível, só um maluco pode pensar que Alegre está mudo desde ontem, aliás desde 2005, pelo que não pode perguntar nadica de nada a Cavaco sobre o BPN.

Mas eu queria agradecer à Teresa Caeiro porque fiquei a saber que foi a BBDO que fez campanhas maravilhosas, como as que se dedicaram à prevenção da violência doméstica. Não sabia, de facto não sabia, que era esta agência que fazia coisas tão bem feitas.

Naturalmente, descobri por arrasto rostos criativos da BBDO em 2005. Havia lá gente com esta cara.

Que homem tão bonito, porra.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

LUCROS DIVINOS...


Cavaco Silva, apesar de ter negado ter comprado ou vendido algo do BPN, a verdade é que teve um lucro de 147.500 euros com a venda de 105.378 acções da SLN, que era dona desse banco num negócio remonta a 2003. A filha do candidato presidencial também ganhou na venda de 149.640 acções a módica quantia de 209.400 euros.
As acções da SLN foram adquiridas em 2001 por um euro cada e dois anos depois foram vendidas por margem de lucro de cerca de 150% (2,4 euros cada). O valor da venda das acções foi determinado por contrato, cujo conteúdo se desconhece já que as acções referidas não estavam cotadas na bolsa.

Não estranhou o Sr. Silva ter um lucro tão grande em tão pouco tempo? Na sua qualidade de "grande economista" não pensou que aquilo não podia ser fruto de negócios "normais"? Não estranhou nem procurou saber como era isso possível?
Nos Estados Unidos, no escândalo Madoff, o aldrabão foi preso e pouco tempo depois condenado a pena de prisão perpétua, a sua família vai ter de devolver cada dólar ganho no negócio assim como todos os que beneficiaram com o esquema por ele montado. Não seria justo que, também em Portugal, os aldrabões, (todos), fossem presos, a chave deitada fora, as suas famílias obrigadas a devolver o que roubaram e todos os que beneficiaram dos esquemas fraudulentos obrigados a entregar tudo o que lucraram?
Sendo o Sr. Silva Presidente da Republica, sabendo que as aldrabices de alguns dos ex-ministros e secretários de estado do seu governo levaram um banco à falência, já custaram mais de 5 mil milhões aos portugueses, (numa altura em que estão sujeitos a medidas draconianas de austeridade com aumentos de impostos e redução de salários), que a pobreza e o desemprego alastram, que o país está de tanga e que muito provavelmente o dinheiro que ganhou foi fruto de vigarices, não deveria ser ele o primeiro a devolver o dinheiro por sua livre e espontânea vontade?
É este o homem que querem que continue como Presidente da Republica por mais cinco anos?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

House of Secrets


Esta foi a semana em que terminou a Casa dos Segredos e em que se voltou a falar dos segredos financeiros de Cavaco Silva, o candidato arregaçou as mangas e começou a esmurrar Manuel Alegre segundo uma velha táctica que diz que a melhor defesa é o ataque. Olhou nos olhos de Alegre, não se engasgou, agitou-se tanto que nem me lembrei de lhe olhar para as mãos para confirmar se estava norma em termos neurológicos. Mas teve azar, a palavra BPN deixa-o fora de si e mesmo que Alegre não lhe tenha acertado em cheio o próprio Cavaco se enterrou, derrotou Alegre e derrotou-se a si próprio. Não hesitou em atacar os seus apoiantes que gerem a CGD e o BPN e ao tentar limpar o currículo de outros amigos seus, como Dias Loureiro ou Oliveira e Costa, acabou por centrar o debate das presidenciais no pior dos temas, o caso BPN.

Não deixa de ser irónico que Cavaco Silva, o grande ideólogo da estratégia da asfixia democrática chegue ao fim do ano com evidentes problemas de falta de ar, cada vez que se fala das suas acções na SLN o candidato presidencial fala de uma forma que evidencia problemas respiratórios. 2009 Foi mesmo o ano de todas as asfixias, foi a asfixia democrática que culminou com as denúncias de escutas a Belém por parte do governo que queria saber se à noite Cavaco prefere as telenovelas ou o Mário Crespo, e termina com o país asfixiado pela dívida ao exterior.

Quem também sofreu de asfixia neste final do ano, foram os administradores da CGD e do BPN que constam na lista da comissão de honra do Cavaco Silva e que foram afogados pelo candidato em pleno debate com Manuel Alegre. É um velho hábito de Cavaco Silva, quando o seu interesse está em causa asfixia os seus apoiantes, aconteceu no passado com Fernando Nogueira, já tinha sucedido este ano com Manuel a Ferreira Leite e aconteceu agora com Faria de Oliveira e Norberto Rosa, actuais administradores da CGD.

Durante o ano que terminou muito se falou de eleições legislativas antecipadas, principalmente quando foi lançada a comissão parlamentar de inquérito ao caso TVI, mais um processo que contou com a intervenção política oportunista de Cavaco Silva. O governo sobreviveu, mas Cavaco teve mais sorte do que Sócrates, o caso escutas a Belém também evidenciou indícios de crime cuja investigação poderiam ter conduzido à demissão de Cavaco Silva e a eleições antecipadas para a Presidência da República.

Cavaco é a figura da semana e do ano de 2010 mas pelos piores motivos, este ano ficará para a história da Presidência da República como o pior ano da sua história em democracia, senão mesmo da República. Cavaco Silva relevou-se uma personagem sem dimensão para ser Presidente da República e o Palácio de Belém quase pareceu o palácio real de Boliqueime, onde os Silvas e os Montezes receberam o papa armados em Bourbons.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

CONTO DE NATAL!...


Aníbal despertou cedo. Passara uma noite atribulada, acordando muitas vezes, sempre a pensar no mesmo. A ansiedade dominava-o.

Olhou para o despertador e viu que eram 7 horas. A seu lado, Maria ressonava ainda. Um fiozinho de baba escorria-lhe dos lábios entreabertos.

Aníbal resmungou qualquer coisa e virou-se para o outro lado, tentando readormecer. Era muito cedo e o Palácio estava frio como o caraças!

A austeridade obrigava a desligar os aquecimentos durante a noite e o nariz de Aníbal estava gelado. Da narina direita pendia uma estalactite de ranho transparente.

Passou mais meia-hora e o silêncio do quarto só era incomodado pelo ressonar de Maria.

Não posso mais, murmurou Aníbal e levantou-se de supetão. Uma tontura obrigou-o a sentar-se na cama com estrondo. Maria acordou, estremunhada.

Que foi isso, Aníbal? Estás a sentir-te mal?

Não consigo dormir mais, resmungou ele.

Mas são só sete e meia da manhã! Está toda a gente a dormir ainda!

Quero lá saber, ripostou Aníbal. Tenho que ir ver as prendas no sapatinho! O que será que o Menino Jesus me deu este ano?!

E Aníbal acabou por se levantar, vestiu o roupão e chinelou em direcção à cozinha do Palácio.

Desde pequenino que gostava de manter a tradição do sapatinho na chaminé e não era agora, que era uma Pessoa Importante, que ia mudar.

Contrariada, Maria chinelou atrás dele.

Chegou a tempo de ouvir um pequeno urro.

Debruçado sobre o sapato de pála, Aníbal examinava a única prenda que lá tinha, com ar apreensivo.

Já viste isto, exclamou Aníbal, com voz rouca – Só tenho esta prenda do Oliveira e Costa: acções do BPN!

Sacana do Menino Jesus!
O coiso...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Crónicas anti-Cavaco (1): Ali-Babá


Nenhuma das pessoas que conheço de cuja honestidade não subsistem dúvidas tem o mau gosto de afirmar a sua honestidade constantemente, nem mesmo quando gente menor tenta pô-la em causa. Sabe-se lá porquê Cavaco Silva que não é um propriamente uma pessoa desconhecida sente uma grande necessidade de afirmar a sua honestidade, principalmente quando de alguma forma se gente fragilizado num debate político. Quando está em dificuldades lá vem com o espantalho da sua honestidade, como se essa suposta qualidade pessoal se sobrepusesse ao valor de todos os adversários e o tornasse superior a eles, no pressuposto de que é mais honesto do que todos os outros.

Esta afirmação constante da sua honestidade assenta, antes de mais num conceito muito estrito de honestidade, para Cavaco a honestidade parece ser um conceito que envolve apenas atributos materiais, como se não andasse por aí muito boa gente honesta que está farta de ser desonesta, ainda que daí não tenham resultados quaisquer benefícios materiais. Na carreira política de Cavaco não faltam episódios que permitem questionar a sua honestidade, a forma como deixou cair Fernando Nogueira a troco de vantagens política nas eleições presidenciais que perdeu frente a Sampaio, o modo como explorou politicamente o boato das escutas a Belém lançado pelo seu assessor mais íntimo ou mesmo o aumento de pensões de gente muito pobre em vésperas de eleições legislativas não lhe trouxeram benefícios materiais, mas são bons exemplos de que a honestidade não se mede apenas em contas bancárias. Um outro bom exemplo da honestidade segundo Cavaco Silva foi a forma como se esqueceu das aulas na Universidade Nova e depois se livrou de um processo disciplinar.

Esta afirmação de honestidade de mistura com tiques autoritários e da afirmação de uma personalidade maior do que a dos adversários não é nova na política portuguesa e cala muito bem nos meios mais conservadores, foi uma estratégia seguida há décadas por Oliveira Salazar. Só que em relação ao ditador Cavaco Silva está em desvantagem, Oliveira Salazar beneficiou de vencimentos modestos enquanto Cavaco coleccionou pensões, Oliveira Salazar morreu sem património enquanto Cavaco tem uma luxuosa vivenda no Algarve que, diz-me quem a conheceu bem, está acima dos rendimentos de um professor universitário, Oliveira Salazar nunca protegeu bandidos que iam levando o país à falência enquanto Cavaco usou o estatuto de Presidente da República para afirmar a inocência de Dias Loureiro, Oliveira Salazar nunca ganhou com acções enquanto Cavaco beneficiou da estranha valorização de acções de um grupo que tinha um buraco financeiro da ordem dos quatro mil milhões de euros.

Se Ali-Babá me viesse dizer que sempre foi honesto e que os que roubavam eram os quarenta ladrões sentiria o mesmo que sinto quando ouço Cavaco afirmar a sua honestidade, pouco me importa se Cavaco é ou não honesto, enquanto ele esteve no poder foi o ver se te avias, gente da sua maior confiança que chegou a Lisboa com o estatuto de maltrapilhos usufruem de riquezas que as lições de economia de Cavaco Silva não conseguem explicar. Com tantos ladrões à volta de pouco me serviria saber que o coitado do Ali-Babá até era honesto.
Jumento

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ai a caridadezinha!…


Os pobrezinhos voltaram a estar na moda.

Na verdade, junto de uma certa classe alta, muito ligada à igreja católica, os pobrezinhos sempre estiveram na moda, sobretudo na quadra natalícia.

Mas agora, com a malfadada crise, toda a gente quer mostrar que ajuda os pobrezinhos.

Desde as várias instituições, há muito presentes na sociedade, como o Banco Alimentar, a Cáritas, a AMI, as Misericórdias, muitas outras se juntaram a esta onda de solidariedade. É o caso da Ajuda de Berço, presente nos átrios dos grandes centros comerciais, da EDP, que anda a recolher roupa, livros e brinquedos, e dos restaurantes, que agora guardam as sobras para os pobrezinhos, com o alto patrocínio do Aníbal de Boliqueime e Senhora.

E as escolas, preocupadas com as crianças pobrezinhas, cheias de fome, decidiram manter os refeitórios das escolas abertos, durante as férias de natal, para lhes poderem dar uma refeição quente.

Numa escola de Setúbal, segundo conta o DN, o refeitório esteve ontem aberto, esperando por 50 crianças esgalgadas de fome. Havia lasanha para todos.

Não apareceu ninguém.

Nem um puto pobrezinho e esganado de fome apareceu!

Agora, as sobras dos carenciados deverão ser distribuídas pelos pobres envergonhados da classe média, os quais, por sua vez, hão-de guardar as sobras para os da classe média-alta, e as sobras deste serão distribuídas pelos ricalhaços, que a darão, finalmente, aos pobrezinhos, assim fechando o círculo da caridadezinha que se instalou neste país com cheiro a sacristia.

Mas havemos de acabar com os pobres, porra!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

RECORDANDO SOPHIA...



A primeira vez que ouvi falar em Sophia de Mello Breyner era criança. Tinha em casa uns livros dela que li, mas confesso que não me lembro quais fossem. Diziam-me que eram muito bem escritos, que em Portugal, ao contrário de outros países como a Inglaterra, a literatura infantil não era grande coisa, mas que Sophia era um oásis nesse deserto. Poderia ser que sim, mas havia poucos livros infantis de que me recordo ter gostado realmente.Do que me lembro, o seu nome foi referido com o maior respeito. Era uma poetisa, uma verdadeira.
Do que conheço, lembro-me apenas de uns lugares comuns, o que só vai em meu desfavor e não dela.

Também não gosto de falar de autores contemporâneos, ou em geral de pessoas contemporâneas, porque sei que isso suscita o discurso de ódio em que nunca se discutem ideias, mas apenas gostos e desgostos sem fundamentação, o que sempre achei pobre. Salientar alguém que nos é contemporâneo pode sempre gerar o “a contrario”: “se ele não fala desta e daquela pessoa é porque as acha medíocres”. O que é uma generalização apressada, mesmo que em algumas situações possa ser justa.

Mas por mais que se queira, quando um conjunto de pessoas, cuja opinião respeitamos, só nos diz bem de alguém, algum reflexo isso tem. No meu caso, começou por ser o da curiosidade. E quanto mais sei da pessoa, mais me suscita o respeito. E quanto mais vejo da obra, mais lhe admiro o estilo.
Amava a Grécia. É certo que não tinha a erudição de Hölderlin ou Goethe, mas isso diz muito das dificuldades culturais da época. Só quem andou procurando durante décadas livros das Belles Lettres e da Loeb (ou para quem pode, da Teubner) sabe como era difícil encontrá-los. Para além da velha Buchholz, nada havia em Portugal que os vendesse. Mas a sua ligação directa à terra permitiu-lhe intuir bem mais que muitos eruditos que fazem da filologia profissão. Despojada, apanhou mais de Arquíloco e Safo que muito estudante de filologia. Não era bem a terra que a inspirava, mas a capacidade de ver nela a ressonância das suas memórias. A sua ligação à Grécia era directa, menos intelectual, mas talvez por isso no seu caso muito vívida.

O seu estilo eleva-nos. Não é obrigatório que a literatura nos eleve. Pode-nos fazer cair no chão. Mas se se fica por nos deixar arrastar na lama, não nos dá a grandeza de Heráclito, mas apenas ar de pocilga. E a verdade é que é sempre mais difícil elevar que manter rasteiro.

O que mais me agrada nela é a ligação entre a personagem e a obra. A elevação não era um esforço, era uma tarefa inevitável. Nesse sentido era plenamente uma aristocrata, como sobram poucos, para a qual um mundo de evidências não limita, mas apenas enriquece. Uma problemática mal digerida apenas gera confusão. E não há criação sem certezas. Platão podia criticar Homero, mas não dita a sua existência.

Do que percebo, porque saliento que não sou especialista de Sophia, era a mesma elevação que a levou para a luta política. Conheci ao longo do tempo muitas pessoas do mesmo meio que lutaram contra os seus privilégios de classe, lutaram pelos outros, por uma concepção de justiça, sem terem nada a ganhar com isso. A luta do proletário pode ser justa, mas é forçosamente egoísta. Sei que está fora de moda, mas a luta do privilegiado contra os privilégios é sempre mais elevada.

Do que percebo, e nisso mais uma vez é uma personagem comovente, a sua história é uma repetição de um drama muitas vezes repetido ao longo dos séculos. É o segundo estado que toma a iniciativa de abdicar dos seus privilégios nos Estados Gerais da França pré-revolucionária, são aristocratas que proclamam os ideais igualitários da maçonaria e do iluminismo. A democracia ateniense é obra de três grandes aristocratas, Sólon, Clístenes e Péricles, e entra na grosseria quando o poder chega às mãos do povo recentemente promovido. E quando vemos a distância infinita que vai de um Churchill a uma Thatcher ou um Blair percebemos que a democracia mantém o seu viço quando não diz o seu verdadeiro nome, a de um regime misto.

Políbio e os estóicos elogiavam uma constituição mista de monarquia, aristocracia e democracia. Cícero acompanhou-os. Num mundo que se sentia velho, e tantas vezes o disse, é sinal de maturidade. O que dá esplendor a uma democracia é manter uma aristocracia e dela recolher uma figura humana que leva dezenas de gerações a produzir. Não é indo para a faculdade que se aprende o mais difícil e o essencial.

Parece que Sophia dizia que “o socialismo é a aristocracia para todos”. Conheço esse ideal, porque foi o que durante vinte anos me moveu. Por isso Platão me chocou durante anos, bem como a crítica que fazia à democracia ateniense e o monstro que pretendia gerar na sua genial, mas triste, República. Mas Péricles morto, e o poder na mão de oportunistas e demagogos, a ralé sem desejo de igualdade, mas apenas pretendendo ser mais que os outros, tiraram-lhes as ilusões. Nesse aspecto a herança iluminista é mais lúcida. Como dizia Voltaire, esse grande antecessor da democracia como se diz: “ a democracia é o governo da canalha”. Mera proclamação como tantas que fez, ou resultado de maior reflexão? Com Voltaire nunca se sabe. Os seus apreciadores correm sempre o risco de serem por ele desprezados.

A desilusão de Sophia com a vida parlamentar é um reflexo de todo o horror ao mecanismo que sempre caracterizou o aristocrata. Para o bem e para o mal. A subtileza jurídica, a rotina fora da ideia, a inércia de movimento são aspectos tristes e pouco expansivos da vida. O burguês domina-os melhor, e tanto melhor que assim seja.

O que me pergunto é se a mistura de Grécia, catolicismo e aristocracia, que gera pessoas de imensa elevação, não pode ser perigosa para os próprios numa democracia que desce à realidade chã e passa a ser dominada pelos denunciantes de Sócrates e pelos comerciantes de ideais, os que os invocam em proveito próprio e de mais ninguém. O que diria Sophia se visse o espectáculo actual? Pura especulação.

Não compreendo os facciosismos. Leni Riefenstahl fez o único documentário político de génio com o Triunfo da Vontade e a única reportagem desportiva que tem nome pleno de arte e que ainda hoje em dia influencia o jornalismo desportivo, mera glosa lateral da sua grande obra. Nem a I República nem o 28 de Maio tiveram obra digna desde nome que os cantasse. O 25 de Abril tem. “O dia inteiro e limpo”.

“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.“

Daqui a uns séculos será mais lembrado por quem o fez lembrar que pelo que aconteceu. Se nos preocupamos com os vencedores das Olimpíadas é Píndaro quem o conseguiu, não os atletas. Não me interessa saber se as pessoas são contra ou a favor do 25 de Abril, até porque à luz dos tempos nada é tão simples. Quem me disse bem de Sophia quando eu era criança era nuns casos forte opositor e noutros forte apoiante do regime salazarista. Essa grandeza de alma falta hoje muitas vezes na discussão no espaço público.

Hoje em dia achamos que é pieguice a ideia de um poeta imortalizar pessoas e eventos. Um duque de Saxe-Weimar que acolhe Goethe pôs Weimar no mapa do mundo graças a isso. Carlos Magno seria um pouco menos magno sem Alcuíno, ou Augusto sem Virgílio. E muita gente inteligente por esse mundo fora não perderia muito tempo com as Descobertas se não fosse Camões. Passámos da pieguice da omnipresença do criador, para a grosseria da sua ausência. Mas as obras que se guardam carinhosamente ao longo dos séculos não são relatos desportivos nem notícias sobre ministros. No desespero, na necessidade de escolha, e na medida do possível, são as grandes obras que se tentam salvaguardar. Tendo ido ao essencial, e tendo tentado viver o essencial, só posso ter o maior respeito pela obra e pela pessoa. E tenho pena que a democracia não a tome por modelo e prefira tomar por tal, não quem por ela se sacrificou, mas os seus beneficiários.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

MEALHADA IMPLEMENTA AGENDA 21 LOCAL


A Agenda 21 Local do Município da Mealhada deverá estar pronta dentro de 18 meses. O documento que definirá o plano estratégico para o desenvolvimento sustentável do concelho vai começar a ser elaborado pelo Instituto do Ambiente e Desenvolvimento – IDAD da Universidade de Aveiro, que é parceiro da Câmara Municipal na implementação da Agenda 21 Local.

Dentro de aproximadamente ano e meio, o Município da Mealhada já deverá ter um plano estratégico de acção ambiental para o concelho, que identifique os principais objectivos e necessidades do município a nível ambiental e a melhor forma de os satisfazer.