terça-feira, 21 de dezembro de 2010

RECORDANDO SOPHIA...



A primeira vez que ouvi falar em Sophia de Mello Breyner era criança. Tinha em casa uns livros dela que li, mas confesso que não me lembro quais fossem. Diziam-me que eram muito bem escritos, que em Portugal, ao contrário de outros países como a Inglaterra, a literatura infantil não era grande coisa, mas que Sophia era um oásis nesse deserto. Poderia ser que sim, mas havia poucos livros infantis de que me recordo ter gostado realmente.Do que me lembro, o seu nome foi referido com o maior respeito. Era uma poetisa, uma verdadeira.
Do que conheço, lembro-me apenas de uns lugares comuns, o que só vai em meu desfavor e não dela.

Também não gosto de falar de autores contemporâneos, ou em geral de pessoas contemporâneas, porque sei que isso suscita o discurso de ódio em que nunca se discutem ideias, mas apenas gostos e desgostos sem fundamentação, o que sempre achei pobre. Salientar alguém que nos é contemporâneo pode sempre gerar o “a contrario”: “se ele não fala desta e daquela pessoa é porque as acha medíocres”. O que é uma generalização apressada, mesmo que em algumas situações possa ser justa.

Mas por mais que se queira, quando um conjunto de pessoas, cuja opinião respeitamos, só nos diz bem de alguém, algum reflexo isso tem. No meu caso, começou por ser o da curiosidade. E quanto mais sei da pessoa, mais me suscita o respeito. E quanto mais vejo da obra, mais lhe admiro o estilo.
Amava a Grécia. É certo que não tinha a erudição de Hölderlin ou Goethe, mas isso diz muito das dificuldades culturais da época. Só quem andou procurando durante décadas livros das Belles Lettres e da Loeb (ou para quem pode, da Teubner) sabe como era difícil encontrá-los. Para além da velha Buchholz, nada havia em Portugal que os vendesse. Mas a sua ligação directa à terra permitiu-lhe intuir bem mais que muitos eruditos que fazem da filologia profissão. Despojada, apanhou mais de Arquíloco e Safo que muito estudante de filologia. Não era bem a terra que a inspirava, mas a capacidade de ver nela a ressonância das suas memórias. A sua ligação à Grécia era directa, menos intelectual, mas talvez por isso no seu caso muito vívida.

O seu estilo eleva-nos. Não é obrigatório que a literatura nos eleve. Pode-nos fazer cair no chão. Mas se se fica por nos deixar arrastar na lama, não nos dá a grandeza de Heráclito, mas apenas ar de pocilga. E a verdade é que é sempre mais difícil elevar que manter rasteiro.

O que mais me agrada nela é a ligação entre a personagem e a obra. A elevação não era um esforço, era uma tarefa inevitável. Nesse sentido era plenamente uma aristocrata, como sobram poucos, para a qual um mundo de evidências não limita, mas apenas enriquece. Uma problemática mal digerida apenas gera confusão. E não há criação sem certezas. Platão podia criticar Homero, mas não dita a sua existência.

Do que percebo, porque saliento que não sou especialista de Sophia, era a mesma elevação que a levou para a luta política. Conheci ao longo do tempo muitas pessoas do mesmo meio que lutaram contra os seus privilégios de classe, lutaram pelos outros, por uma concepção de justiça, sem terem nada a ganhar com isso. A luta do proletário pode ser justa, mas é forçosamente egoísta. Sei que está fora de moda, mas a luta do privilegiado contra os privilégios é sempre mais elevada.

Do que percebo, e nisso mais uma vez é uma personagem comovente, a sua história é uma repetição de um drama muitas vezes repetido ao longo dos séculos. É o segundo estado que toma a iniciativa de abdicar dos seus privilégios nos Estados Gerais da França pré-revolucionária, são aristocratas que proclamam os ideais igualitários da maçonaria e do iluminismo. A democracia ateniense é obra de três grandes aristocratas, Sólon, Clístenes e Péricles, e entra na grosseria quando o poder chega às mãos do povo recentemente promovido. E quando vemos a distância infinita que vai de um Churchill a uma Thatcher ou um Blair percebemos que a democracia mantém o seu viço quando não diz o seu verdadeiro nome, a de um regime misto.

Políbio e os estóicos elogiavam uma constituição mista de monarquia, aristocracia e democracia. Cícero acompanhou-os. Num mundo que se sentia velho, e tantas vezes o disse, é sinal de maturidade. O que dá esplendor a uma democracia é manter uma aristocracia e dela recolher uma figura humana que leva dezenas de gerações a produzir. Não é indo para a faculdade que se aprende o mais difícil e o essencial.

Parece que Sophia dizia que “o socialismo é a aristocracia para todos”. Conheço esse ideal, porque foi o que durante vinte anos me moveu. Por isso Platão me chocou durante anos, bem como a crítica que fazia à democracia ateniense e o monstro que pretendia gerar na sua genial, mas triste, República. Mas Péricles morto, e o poder na mão de oportunistas e demagogos, a ralé sem desejo de igualdade, mas apenas pretendendo ser mais que os outros, tiraram-lhes as ilusões. Nesse aspecto a herança iluminista é mais lúcida. Como dizia Voltaire, esse grande antecessor da democracia como se diz: “ a democracia é o governo da canalha”. Mera proclamação como tantas que fez, ou resultado de maior reflexão? Com Voltaire nunca se sabe. Os seus apreciadores correm sempre o risco de serem por ele desprezados.

A desilusão de Sophia com a vida parlamentar é um reflexo de todo o horror ao mecanismo que sempre caracterizou o aristocrata. Para o bem e para o mal. A subtileza jurídica, a rotina fora da ideia, a inércia de movimento são aspectos tristes e pouco expansivos da vida. O burguês domina-os melhor, e tanto melhor que assim seja.

O que me pergunto é se a mistura de Grécia, catolicismo e aristocracia, que gera pessoas de imensa elevação, não pode ser perigosa para os próprios numa democracia que desce à realidade chã e passa a ser dominada pelos denunciantes de Sócrates e pelos comerciantes de ideais, os que os invocam em proveito próprio e de mais ninguém. O que diria Sophia se visse o espectáculo actual? Pura especulação.

Não compreendo os facciosismos. Leni Riefenstahl fez o único documentário político de génio com o Triunfo da Vontade e a única reportagem desportiva que tem nome pleno de arte e que ainda hoje em dia influencia o jornalismo desportivo, mera glosa lateral da sua grande obra. Nem a I República nem o 28 de Maio tiveram obra digna desde nome que os cantasse. O 25 de Abril tem. “O dia inteiro e limpo”.

“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.“

Daqui a uns séculos será mais lembrado por quem o fez lembrar que pelo que aconteceu. Se nos preocupamos com os vencedores das Olimpíadas é Píndaro quem o conseguiu, não os atletas. Não me interessa saber se as pessoas são contra ou a favor do 25 de Abril, até porque à luz dos tempos nada é tão simples. Quem me disse bem de Sophia quando eu era criança era nuns casos forte opositor e noutros forte apoiante do regime salazarista. Essa grandeza de alma falta hoje muitas vezes na discussão no espaço público.

Hoje em dia achamos que é pieguice a ideia de um poeta imortalizar pessoas e eventos. Um duque de Saxe-Weimar que acolhe Goethe pôs Weimar no mapa do mundo graças a isso. Carlos Magno seria um pouco menos magno sem Alcuíno, ou Augusto sem Virgílio. E muita gente inteligente por esse mundo fora não perderia muito tempo com as Descobertas se não fosse Camões. Passámos da pieguice da omnipresença do criador, para a grosseria da sua ausência. Mas as obras que se guardam carinhosamente ao longo dos séculos não são relatos desportivos nem notícias sobre ministros. No desespero, na necessidade de escolha, e na medida do possível, são as grandes obras que se tentam salvaguardar. Tendo ido ao essencial, e tendo tentado viver o essencial, só posso ter o maior respeito pela obra e pela pessoa. E tenho pena que a democracia não a tome por modelo e prefira tomar por tal, não quem por ela se sacrificou, mas os seus beneficiários.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

MEALHADA IMPLEMENTA AGENDA 21 LOCAL


A Agenda 21 Local do Município da Mealhada deverá estar pronta dentro de 18 meses. O documento que definirá o plano estratégico para o desenvolvimento sustentável do concelho vai começar a ser elaborado pelo Instituto do Ambiente e Desenvolvimento – IDAD da Universidade de Aveiro, que é parceiro da Câmara Municipal na implementação da Agenda 21 Local.

Dentro de aproximadamente ano e meio, o Município da Mealhada já deverá ter um plano estratégico de acção ambiental para o concelho, que identifique os principais objectivos e necessidades do município a nível ambiental e a melhor forma de os satisfazer.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

HÁ FOME EM PORTUGAL(?)


Cavaco acaba este seu mandato como o começou, com grandes preocupações sociais, algo que não é difícil a qualquer político num país onde não faltam chagas sociais para exibir. Começou com o roteiro da exclusão e acaba com lágrimas de crocodilo chamando a atenção para a existência da fome em Portugal.

Há fome em Portugal? Há, que me recorde sempre houve e como a fome não é uma sensação colectiva para quem a tem é sempre dolorosa independentemente de serem cem mil ou trezentos mil portugueses a terem falta de algo para comer. Ao falar de fome, ou melhor, da existência de fome Cavaco tem razão, só que parece que o candidato presidencial só parece preocupar-se com o problema da fome quando não tem poderes para ajudar a combatê-la e apesar das muitas promessas a única ajuda que deu para a evitar parece terem sido uns artigos que escreveu há uns anos atrás.

Acontece que no seu último mandato como primeiro-ministro também houve muita fome, havia fome no Vale do Ave, havia fome na região de Setúbal, havia fome num Alentejo desprezado pelos seus governos e que foi atingido por uma seca que obrigou mesmo a operações de ajuda alimentar. Nessa altura vivia no Alentejo e a governadora civil de Setúbal deu instruções às escolas para contratarem alguns funcionários com contrato a prazo, em particular foi feita a sugestão de se dar prioridade a eleitores do PSD.

Foi o tempo das bandeiras negras, das crianças a desmaiar na escola com fome, dos salários em atraso, e o que fez Cavaco Silva? Nada, deixou o governo com um défice de 8%, lançou a governação do país numa grande confusão com o seu tabu da candidatura presidencial, atirou Fernando Nogueira aos lobos e foi preparar a sua ambicionada ascensão a Presidente da República, felizmente os portugueses tiveram nesse tempo a sabedoria que não parecem ter hoje, dispensaram os seus serviços.

De então para cá Cavaco parece ter enriquecido, deixou a velhinha Vivenda Mariani e construiu uma nova vivenda bem mais luxuosa, ganhou uns dinheiros com um negócio obscuro de acções que nunca foi bem explicado e muito menos investigado por quem de direito e acumulou pensões. Reapareceu, entretanto, com grandes preocupações, incomodado por haver fome, transvestido num presidente cheio de grande sensibilidade social.

Mas Cavaco pode ficar descansado, os seus não só não passaram fome como estão ricos, enriqueceram com os milhões de contos do Fundo Social Europeu e outros fundos comunitários tão mal geridos pelos seus governos, enriqueceram com os milhares de milhões de euros roubados no BPN em créditos mal parados, negócios de acções e outras manobras obscuras para delapidar o dinheiro alheio.

Se a direita portuguesa não fosse tão miserável teria escolhido outro candidato presidencial, a escolha ou rejeição de Cavaco Silva para o cargo de Presidente da República é mais do que um problema de carácter político, é um problema de memória. Um país que escolhe tal presidente até parece estar com a doença de Alzheimer, esqueceu tudo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O RELATÓRIO "PISA" E OS QUE PREFEREM PISAR O PAÍS...


No meio de tantas más notícias e sabendo-se que uma das causas das nossas dificuldades se encontram no ensino foi agradável saber que um relatório da OCDE conclui que o ensino em Portugal deu um pulo qualitativo significativo nos últimos anos, sendo esta evolução medida pela avaliação dos conhecimentos dos alunos em diversos domínios.

Pouco me importa quem ganha ou perde eleitoralmente, da mesma forma que não avalio eleitoralmente os sucessos de muitas empresas portuguesas, o trabalho meritório de muitos portugueses, sejam serralheiros, escritores, políticos ou portugueses, é destes resultados que se faz o progresso e quando for caso disso saberemos avaliar o trabalho dos governantes, neste como em muitos outros domínios.

É evidente que a fixação dos professores, que a crescente competência dos que gerem as escolas, o empenho dos profissionais do sector são factores determinantes para este sucesso. Da mesma forma que também o foram a aposta no sector, o esforço no combate ao abandono escolar, os investimentos na renovação do parque escolar, a introdução de novas tecnologias nas escolas, as reformas feitas no sector ainda que algumas tenham sido feitas de forma atabalhoada.

O importante agora é que se perceba que foi possível melhorar de forma significativa e que o potencial do que se pode melhorar ainda é muito grande, basta olhar para o ranking das escolas para se perceber que com recursos idênticos as assimetrias nos resultados são ainda muito grandes, muito para além do que se pode explicar como consequência de assimetrias económicas, sociais ou de natureza urbana ou geográfica.

Mas se o estudo serviu para mostrar que ocorreram melhorias significativas no ensino, também pôs em evidência a miséria humana que por grassa, demonstrando que há neste país muita gente mais empenhada que se vá ao fundo do que no seu progresso. Algumas posições que ouvi roçam o miserável, desde um conhecido sindicalista dos professores a um conhecido professor blogger. Mas se os que falaram despudoradamente puseram a miséria à vista, o mesmo se pode dizer de alguns silêncios, personalidades que nunca perderam a oportunidade para desqualificar o ensino e as políticas governamentais do sector.

Recordo-me, por exemplo, das acusação de facilitismo sucessivamente feitas por Pedro Duarte, o deputado do PSD que habitualmente representa este partido nas questões da educação, de Santana Castilho que nos seus artigos no Público ou nos seus comentários televisivos sempre tomou posições que a serem válidas Portugal estaria no fim da lista da avaliação da OCDE, e de muitas outras personalidades que não perderam uma oportunidade para achincalhar o ensino em Portugal até mesmo Manuel Maria Carrilho na sua primeira entrevista a Mário Crespo depois de regressar de Paris optou por desancar no ensino. A excepção a este comportamento miserável foi António Nogueira Leite que se despiu de opções partidárias e teve a coragem de elogiar os resultados.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mudança de epígrafe


Pouco importa que Passos Coelho se desdiga agora — até porque esse péssimo hábito está muito arreigado nele. A malograda Dr.ª Manuela que o diga. Neste contexto, chegou a altura de substituir a epígrafe. Apaga-se esta:
    O Governo tem estado bastante bem nas respostas que tem encontrado para a crise financeira, que, de resto, não são respostas muito originais, são concertadas ao nível europeu, mas que têm funcionado bem em Portugal. - Passos Coelho (10.12.2008)
A nova epígrafe é a seguinte:
    Olhando para os quatro governos individualmente, o maior aumento na despesa veio durante os governos de Durão Barroso e Santana Lopes: 0,48% por ano. Segue-se-lhe o governo de Cavaco Silva com 0,32%, António Guterres com 0,31%, e por fim José Sócrates com um aumento de apenas 0,14%.Ricardo Reis, professor de economia na Universidade de Columbia
Quando tanto se fala de despesa pública, é bom avivar as cachimónias.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

OU HÁ EUROPA OU COMEM TODOS!...


Nestes últimos tempos a Europa tem dado uma péssima imagem de si própria mostrando que deu os maiores passos no sentido da integração económica com as piores lideranças desde a sua fundação. Não só tem sido capaz de dar uma resposta que faz perigar não só o euro mas também todo o processo de integração europeia, como evidenciou que não existem nem valores nem solidariedade europeia.

Veja-se o que sucede com a Irlanda, em vez de receber solidariedade dos seus parceiros Europeus foi alvo de pressões para pedir ajuda, uma ajuda paga a juros altos e dada a troco da intromissão na política económica portuguesa. Em vez de serem solidários com os irlandeses os parceiros europeus limitaram-se a afirmar que cada um nada tinha que ver com os problemas da Irlanda, até por cá não houve gato pingado que não afirmasse que estamos melhor do que os irlandeses.

Foi preciso os especuladores começarem a virar a sua atenção para a Espanha para que se ouvissem governantes espanhóis virem defender a economia portuguesa, mas de forma vergonhosa como do costume, dizendo que estamos melhor do que os irlandeses. Foi também preciso a Espanha começar a estar no centro das atenções para a linguagem dos mais poderosos da Europa começar a ser menos dura com os supostos faltosos, todos sabem que a seguir à Espanha seguir-se-á a Itália e quando isso suceder é o progresso económico da Europa e dos que mais ganham com essa Europa que estará em causa.

No actual contexto europeu a única forma de reequilibrar as contas públicas e a balança comercial é promovendo o empobrecimento dos portugueses e a seguir a cada vaga de desarmamento pautal ocorrerá mais uma perda de competitividade para a qual Portugal não terá resposta. Com os portugueses cada vez mais pobres e com uma economia incapaz de se modernizar entra-se num circulo vicioso de empobrecimento.

O processo de integração económica na Europa está a gerar desigualdades crescentes numa Europa cada vez menos coesa, o euro é cada vez mais o marco e a zona monetária do euro é gerida em função dos interesses estratégicos de uma Alemanha cada vez mais solidária, principalmente em relação aos países do sul e desde o fim da “cortina de ferro”.

Estarão os países do Sul da Europa dispostos a ver a poupança dos seus cidadãos serem investidas nos bancos e na dívida pública alemã, a manter a livre circulação de mercadorias favorecendo a importação dos produtos alemães e a sujeitar-se ao aumento do custo do crédito porque o governo alemão adopta uma estratégia supostamente em defesa dos seus contribuintes?

A primeira consequência das políticas de austeridade adoptadas pelo governo português será o aumento das assimetrias na distribuição do rendimento, isto é, os mais ricos terão mais dinheiro para comprar bens de luxo importados, principalmente viaturas de luxo alemãs , bem como para colocar as suas poupanças no mercado financeiro europeu para financiarem o crescimento da economia alemã, à qual são cobrados juros bem mais baixos dos que os exigidos às economia do sul.

Até quando Portugal e outros países terão de pagar a factura de um euro convertido em marco e o oportunismo económico da Alemanha?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

VEJAM COMO SE FAZ GREVE!...


A Auto- Europa vai aumentar os salários dos seus trabalhadores em 3,9%.

Num panorama de cortes gerais de salários, este aumento pode surpreender muita gente, mas não quem perceba que é o modelo de gestão ( bem diferente do adoptado pelos gananciosos empresários portugueses) a consciencialização dos trabalhadores e dos sindicatos que está na base do sucesso da empresa.

Teria sido fácil à administração da Auto-Europa fazer como os nossos empresários e, escudando-se com a crise, rejeitar o aumento de salários ou tentar pelo menos um aumento ao nível da inflação. Não o fez.

Teria sido cómodo, para os trabalhadores da Auto-Europa, não aderir à greve, argumentando que as práticas seguidas pela empresa não justificavam a greve. No entanto, os trabalhadores aderiram à greve em massa, invocando a solidariedade com os trabalhadores de outros sectores e familiares que estão a ser vítimas da política seguida por este governo.

O direito à greve e à não greve é essencial para o funcionamento de uma democracia e cada um deve agir de acordo com a sua consciência. Agora, o que é inadmissível, é que haja pessoas com lata de ir para as câmaras de televisão dizer que estão solidários com a greve, mas não a fazem, porque isso representaria a perda de um dia de salário. Ou quem utilize as mesmas câmaras para afirmar que os grevistas são calaceiros. Gente desta não devia ter direito a votar, porque não percebe nada da sociedade em que vive e, assim sendo, quando mete o voto na urna, está a votar apenas num clube e não num modelo de sociedade que pretende para o país.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

COMBATER A EPIDEMIA!...


Manual Prático de Prevenção do Novo Vírus da Dívida Soberana (edição especial para Governos de países endividados do Sul da Europa, revista e adaptada ao caso português):

Principais Sintomas:
  • Juros da dívida com temperatura superior a 7%;

  • Dificuldades de financiamento

  • Orçamentos restritivos;

  • Recessão

  • Irritação social podendo, em certos casos, ocorrer Greve Geral;

  • Ministros com pensamento desconexo e sinais evidentes de desorientação.

Medidas e Orientações para elaboração de Planos de Contingência:

  • Lavar frequentemente as mãos. A crise? Eh pá, não fomos nós. Não temos culpa nenhuma disso! Invocar sempre um brilhante track record de saneamento das contas públicas. Não esquecer de mandar um Postal de Boas-Festas ao Constâncio. Escovar também as unhas!

  • Tossir e espirrar para cima de toda a gente. Responsabilizar sempre terceiros pela má governação. A eficácia será maior se forem identificados vários responsáveis alternativos: a Oposição, os Mercados, a Situação Internacional, o Aquecimento Global, o Ruca e a Barbie, o Míldio da Videira, o Nemátodo do Pinheiro ... Está na hora de apelar à criatividade.

  • Manter distância de países infectados. Salientar a enorme diferença que existe entre a nossa situação e a de outros países que já foram contaminados. Semelhantes à Irlanda, nós? Por amor de Deus! Os irlandeses são todos ruivos, senhores. Assobiar para o ar na presença de um Grego. Mudar de passeio perante a aproximação de um Espanhol.

  • Utilizar máscara de protecção. O vírus da dívida soberana transmite-se sobretudo pelos olhos. A máscara deve impedir por completo que se veja a realidade. Isso mesmo: convém não ver nadinha. É um bocadinho desconfortável, não é? A nossa saúde está primeiro!

  • Evitar alarmismo na sociedade. Não se pode estar sempre a falar na crise da dívida, que diabo. Ò Amado... outra cimeirazinha da Nato em Dezembro é que era. Vê lá se consegues, pá. Isso mesmo. Diz ao Obama que já chegaram os blindados.

  • No caso de ocorrerem sintomas, jamais contactar a linha FMI 24. É que nem pensar! Eram bem capazes de dar baixa ao Governo e a malta quer é trabalhinho. Em geral, recusar qualquer tipo de ajuda. Nós cá nos vamos governando.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

UM EXEMPLO A SEGUIR!?...


Ao que parece a política económica adopta por Teixeira dos Santos é a política do exemplo, antes de sugerir medidas ao sector privado testa-as antes na Função Pública, é esta a conclusão a que se chega depois de o ouvir sugerir contenção salarial, propondo às empresas que sigam o exemplo dado pelo Estado.

O mesmo ministro que há poucos dias vertia lágrimas de crocodilo pelos cortes dos rendimentos de alguns funcionários públicos, justificando-os com a imposição de reduzir um défice que ele ajudou a descontrolar-se, assume agora a premeditação desses cortes, considerando-os um exemplo dado ao sector privado.

Esta postura oportunista de Teixeira dos Santos coloca dois problemas, o primeiro é saber quais as próximas medidas que vai impor ao Estado para que sirvam de exemplo ao sector privado, a segunda é compreender como é que este sector vai imitar a incompetência de Teixeira dos Santos reduzindo o rendimento dos seus quadros mais qualificados.

Teixeira dos Santos pode adoptar cortes salariais segundo critérios de oportunismo eleitoral pois deixará de ser ministro, não terá de assumir a responsabilidade pelas consequências da sangria de quadros do Estado. Mas as empresas estão sujeitas a regras de convivência a que o ministro não está sujeito, desde logo existe leis laborais, mas também existe a necessidade de gerir com bom senso sob pena de destruir as empresas. Teixeira dos Santos pode destruir o Estado, pode promover reestruturações e reformas falhadas, se os empresários portugueses tivessem seguido como exemplo o de Teixeira dos Santos muitas das nossas empresas não sobreviveriam.

Teixeira dos Santos tem adoptado justificado muitas das reformas do Estado como sendo uma aproximação às regras que existem no sector privado, só que essa aproximação só é feita quando daí resultam poupanças, tudo o que de bom existe no sector privado, quer em regalias , quer em modelos de gestão, é ignorado. Depois de ter destruído o Estado Teixeira dos Santos inverte o sentido da aproximação e sugere aos empresários que sigam o exemplo da sua incompetência, dos seus valores menos democráticos e da falta de consideração pelos trabalhadores.

O ministro das Finanças é que deveria seguir um exemplo muito comum no sector privado, enquanto gestor incompetente já devia ter apresentado a demissão.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

TIGRES JOVENS OU JOVENS TIGRES DA NOSSA POLÍTICA...


Se há algo que caracteriza o actual poder é o domínio de uma nova classe de “jotas” que já não correspondem aos habituais militantes das juventudes partidárias, esses ficam-se pelos gabinetes de assessores dos autarcas e pelas empresas municipais. Nos gabinetes ministeriais impera uma outra classe de “jotas” diria mesmo de jotas mais finos que ascendem ao poder impulsionados pelas raízes de poderosas árvores genealógicas, pelos laços de amizade criados nas universidades, nas consultoras ou nos escritórios de advogados onde estagiaram.

Estes jovens tigres são inexperientes, deslumbrados com o poder e mordomias dos gabinetes ministeriais, num dia andavam a comer sopas, no outro andam de BMW com motorista, num dia ganham mil euros num escritório de advogados onde desempenham as tarefas rotineiras, no outro são distintos adjuntos de secretários de Estado ou chefes de gabinete. Sem experiência, ávidos de poder e com um profundo desprezo pela Administração Pública tem como único objectivo fazer currículo e regressar aos escritórios e consultoras com direito à promoção.

Cheios do poder que vem dos laços familiares, da amizade do ministro ou do secretário de Estado ou da passagem pelo núcleo duro de apoiantes do primeiro-ministro têm um profundo desprezo pela hierarquia da Administração Pública, para eles o que conta não é a competência ou a defesa dos interesses do Estado, é o poder que cada um tem e a capacidade de usar a informação dos serviços para influenciar a opinião pública. Se o povo está descrente procuram-se indicadores de sucesso, se o povo está revoltado fazem-se fusões e saneamentos e exibem-se os culpados, estes jovens tigres são uma versão moderna e liberal dos antigos guardas vermelho da revolução cultural de Mao.

Alguns são bem sucedidos e chegam mesmo a secretários de Estado depois de uma passagem como assessores de Sócrates ou chefes de gabinete do ministro, é o que sucede no ministério das Finanças, cheio de gaiatagem agressiva onde Teixeira dos Santos parece o pai da malta. E pelo que dizem esta é uma realidade comum a muitos gabinetes ministeriais, estão cheio de jovens tigres visionários convencidos de que por serem filhos ou genros de Guilherme Oliveira Martins ou porque por terem tomado o pequeno-almoço com Sócrates são detentores do dom da competência ilimitada e de um poder que não emana de um regime democrático mas sim do facto de pertencerem à corte de um vencedor de eleições.

O risco de levarem o PS a uma derrota humilhante nas próximas legislativas não os incomoda muito, a uma boa parte deles tanto faz que governe o PSD como o PS e quando mudar o governo regressarão às consultoras e escritórios de advogados onde serão promovidos em sinal de gratidão pelas encomendas de falsos estudos que fizeram ou pelas leis simpáticas para os negócios que ajudaram a adoptar. Exibirão nos seus currículos os elevados cargos que desempenharam sem que neles conste a incompetência que promoveram.